Observação de aves na antropausa: o que um estudo na Finlândia nos mostra sobre reconexões
- elisebozzetto
- 31 de mar.
- 3 min de leitura
Um estudo publicado na revista Journal of Urban Ecology*, em 2025, analisou a observação de aves em Helsínquia (Finlância) antes, durante e depois dos confinamentos da COVID-19. É engraçado pensar que foi exatamente na antropausa (do inglês anthropause - termo cunhado por pesquisadores para descrever a redução abrupta e significativa da atividade humana em todo o mundo durante os lockdowns e confinamentos da pandemia) que eu também me reconectei com a observação de aves.
Falo reconectei pois, em certa medida, sempre observei com fascinação a natureza ao meu redor. Mas isso é assunto para outro post. Voltando: em Helsinque, atividades ao ar livre foram permitidas e, consequentemente, o uso de áreas verdes aumentou de forma notável.
O salto nos números: do isolamento à contemplação
Os dados coletados em Helsinque revelam um padrão claro de ascensão. No período pré-pandêmico, a média diária era de 55,5 observadores. Esse número começou a dar sinais de crescimento logo nas primeiras restrições, mas foi durante os momentos mais críticos de isolamento que o fenômeno explodiu: a média saltou para 93,1 observadores no primeiro lockdown e atingiu seu pico de 95,3 no segundo.
O que explica esse fenômeno? Além da óbvia necessidade de escape, os lockdowns coincidiram com a migração de primavera (um espetáculo natural que, em tempos "normais", muitas vezes passa despercebido pela pressa urbana). Com o silenciamento das cidades, a natureza ocupou espaços: houve um aumento relatado na abundância de aves e até o registro de espécies raras mais próximas de áreas residenciais. Era o cenário perfeito para quem buscava refúgio.
O legado da antropausa
O ponto mais interessante do estudo, porém, é o que aconteceu depois que as portas se abriram. Mesmo com o fim de todas as restrições em 2022, o número de observadores não retornou aos patamares baixos de 2019. A média estabilizou-se em 71,4, um índice significativamente maior do que o período pré-pandemia.
Isso nos mostra que, para muitos, a observação de aves deixou de ser um passatempo de emergência para se tornar um hábito consolidado e uma nova forma de valorização do ambiente externo. Se o número de observadores manteve-se, podemos considerar que aumentou o bem-estar das pessoas que praticam o birdwatching, por isso a continuidade.
A dualidade da ciência cidadã
Embora a antropausa tenha trazido desafios globais para a conservação, como a redução de fiscalização e recursos, que infelizmente facilitaram atividades ilegais em reservas, ela também escancarou o potencial da ciência cidadã.
Ter mais pessoas com binóculos e câmeras nas mãos não é apenas um movimento de bem-estar individual; é uma rede de monitoramento em tempo real. Os resultados de Helsinque reforçam que o engajamento do público é uma ferramenta poderosa para viabilizar esforços eficazes de conservação e para entendermos como as espécies coexistem conosco no tecido urbano.
Os cientistas não conseguem estar a campo com tanta frequência, reconhecer todas as espécies para mapeamento em tempo real da presença e quantidade de indivíduos nos ambientes. Mas nós, passarinheiros, conseguimos. É um papel muito importante que todos os observadores de aves desempenham. Mas, isso também é tema para outro post. Achei incrível bisbilhotar a EBSCO e achar esse estudo recente, publicado ano passado.

* Birding in the Anthropause: birdwatching in Helsinki before, during, and after COVID-19 lockdowns. Lardot, Sofia; MacGregor-Fors, Ian. Journal of Urban Ecology. 2025, Vol. 11 Issue 1, p1-7. 7p. Disponível na MyEBSCO, acessado em 31/03/2026.


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