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A fotografia como registro da impermanência da vida

  • Foto do escritor: elisebozzetto
    elisebozzetto
  • 12 de ago.
  • 3 min de leitura

Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas, como um mar

Num indo e vindo infinito


Tudo o que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo


Não adianta fugir

Nem mentir pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro, sempre


Como uma onda no mar


Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas, como um mar

Num indo e vindo infinito


Tudo o que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo


Não adianta fugir

Nem mentir pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro, sempre


Composição: Nelson Motta, Lulu Santos


Hoje preciso escrever sobre isso e sim, este é um texto gerado 100% por uma humana, nada de IA. Precioso em tempos atuais, não?


A impermanência parece ser o tema do meu dia. Um dos meus trabalhos é numa universidade. Estou aqui desde 1997. Dois anos como estagiária, depois concurso, depois professora. O tempo todo, minha "identidade" morreu e renasceu ali dentro: fui mudando de setores, de cargos, até chegar na comunicação, onde fiquei por quase duas décadas, até sair de lá e permanecer, ainda hoje, na docência. E, mesmo não mudando de área desde 2003, segui mudando de funções, levada por impermanências que não dependiam totalmente de mim. Assim é a impermanência: o estado natural de tudo que é construído.


Hoje tinha exame médico e o profissional que me atendeu o faz desde 2002. Ele viu nos registros. Há praticamente um quarto de século encontro o Dr. Clairton a cada dois anos para ele checar se continuo com a saúde ocupacional em dia. Brincamos sobre o tempo.


Voltei para meu gabinete docente, passando vagarosamente pelos prédios, olhando atentamente as árvores lindas que restaram no entorno dos prédios e tentando resgatar na minha memória como eram quando comecei aqui, lá em 97. Eu posso dizer com propriedade que, quando cheguei aqui, era tudo mato, haha. Era mesmo. Chego na minha sala, ao tirar uma carta do tarot para o dia (tenho adotado esta prática totalmente anticientífica, à revelia do ceticismo acadêmico), a sincronicidade da vida. A carta tirada foi a Roda da Fortuna, me convidando para contemplar a impermanência. O que eu justamente estava fazendo nesta manhã. Sou praticante budista então contemplar a impermanência é algo que faço com muita frequência.


Mas, vamos à fotografia, ensejo do título que até agora não apareceu. Se bem que, metaforicamente, o que fiz ao longo de tantos caracteres justamente foi montar uma fotografia do meu dia e minhas contemplações. Fecha aspas.


Uma arte que morre, de objetos que morrem, em contextos que se transformam


O papel fotográfico envelhece, talvez não na mesma velocidade daqueles seres que foram retratados. Sujeito ao tempo, o papel é carcomido pela passagem cronológica. Mas algo naqueles registros permanece intacto, sem esforço: nossa fixação àquelas identidades que há tempo não existem mais. Se transformaram, se diluíram ou simplesmente desmoronaram.


Quando olhamos para uma fotografia antiga de nossos amigos, contemplamos ali algo que já se transformou em absoluto. Como dói mudar e, para mim, ao menos, como dói não reconhecer a mudança. Permanecer a mesma na cabeça (e no coração) das pessoas, sendo que essa pessoa já não existe mais, é uma das armadilhas mais silenciosamente castradoras. Fuja de pessoas que te congelam no tempo, que não te reconhecem, que não te deem um novo nascimento. Mas não fuja literalmente, como se fossem indignas. Fuja da tentação de concordar com elas, de dar ouvidos àquilo que você já não é. A gente precisa deixar morrer o que o tempo precisa levar. É preciso crescer, ainda mais quando já somos grandes. Você já se deixou crescer hoje? Já deixou a impermanência levar o que já mudou, já morreu, mas só você ainda não se deu conta? A fotografia congela no tempo o que já foi, mas não é mais. Nada, absolutamente nada congelado, assim o fica.



 
 
 

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